
Talvez o assunto não interesse às pessoas que não gostam de bichos. Se for o seu caso procure ler outra coisa, juro que não fico chateado.
Mas o caso é que eu tive uma gata persa, branca, linda, e, já naquela altura, idosa, cujo nome era Monique. Era a que restara das seis gatas e um gato, todos persas, que criei na minha casa, durante anos.
Apesar de os inconseqüentes dizerem que os gatos têm sete vidas, o fato é que foram morrendo, um de cada vez e uma vez só – o que desmente a afirmativa chula e despropositada dos que garantem coisas só por ouvirem dizer.
Quem conhece gatos sabe como têm personalidade forte e como se
Monique, por exemplo, certamente por ter atingido uma idade avançada, já não se divertia correndo atrás de bolinhas de papel. Dormia muito – como sucede com os idosos, que fazem, do sono,uma espécie de treino para a morte – e nos locais os mais variados. Era preciso procurá-la de noite, antes de fechar as portas da casa. Várias vezes já dormira numa varanda descoberta, apanhando chuva, só por ter cismado fingir em não ouvir os meus chamados. De manhã, portas abertas, lá vinha ela, miando, olhos grandes e amarelos, assustada por causa dos relâmpagos e trovões. Enroscava-se nas minhas pernas até que a pegasse no colo para enxugá-la, antes da ração matutina.
Fomos, de verdade, grandes amigos. Sabia que a partir de determinada hora, já no final da tarde, ela ficava no topo da escada por onde eu ia subir, ao chegar, e minha mulher dizia que quando se ouvia o barulho do motor do carro, entrando na garagem, Monique ficava sentada, esperando que eu abrisse a porta. Eu subia, parava antes de entrar para fazer-lhe uma festa, e em seguida ia para o quarto, seguido por ela, ronronando – mostrando que estava feliz.
Subia na cama enquanto eu trocava de roupa, e quando me sentava para calçar os chinelos lá vinha ela, miando baixinho e em busca de mais carinho.
Mas Monique também tinha gênio e brigava comigo. Ao passar um fim-de-semana fora, quando voltasse ela estaria lá, no topo da escada, mas ao me ver corria para um lugar da casa para se esconder. Tinha que deixar o tempo passar, até que ela resolvesse aparecer, como que por acaso, andando junto a mim, para que a apanhasse do chão e começasse a conquistá-la de novo.
Envelhecemos juntos – ela mais depressa porque gatos vivem menos que os humanos – mas ambos com a mesma dignidade dos que sabem que o tempo não perdoa, mas nem por isso deixam de cultivar sentimentos bons, como o da amizade e do companheirismo. Que tanta falta fazem neste mundo de agora, cheio de corações ressequidos pela incompreensão, a inveja, o despeito – incapazes de perceber o valor e a beleza de uma amizade, seja ela entre pessoas ou entre pessoas e bichos.
Théo Drummond