
Quando o interfone tocou Marilena prontamente atendeu e Theodoro, que estava lendo um livro, na sala do apartamento,
ouviu quando ela disse, “pois não, pode mandar subir!” Em
seguida ela voltou para onde ele estava e nervosa, informou
o que ele já sabia:
-“É a nova candidata a empregada, meu bem! Vamos torcer
para dar certo, não é?”
Enquanto marcava a página e fechava o livro, Theodoro lembrou
da morte recente da Náneia, que trabalhara como doméstica
com eles durante 40 anos, ajudara a criar os filhos e era considerada como “da família”. Sabia que sua substituição não
seria fácil, inclusive porque Marilena tinha uma quase obsessão
por limpeza, à qual Nanéia havia se habituado em pouco tempo.
Por sua vez Marilena, enquanto a campainha da porta não
tocava, pensava nas amigas que a surpreendiam dizendo que
as domésticas de hoje não eram como antigamente, e que era
muito difícil encontrar as que cuidassem da casa, cozinhassem,
lavassem e passassem, como era natural nos bons tempos.
-“Isso aqui está virando país do primeiro mundo!”
Com o coração batendo mais apressado Marilena, finalmente,
ouviu o ruído da campainha, e Theodoro apressou-se em abrir
a porta pedindo que a candidata e empregada doméstica
entrasse.
Era uma figura alta, de uns cinqüenta anos, vestindo um terninho
escuro bem recortado, cabelos pintados de louro e presos num coque, sandália de saltinho e bolsa à tiracolo.
A primeira impressão de Marilena e Theodoro é que alguma
coisa estava errada, vai ver a senhora tinha vindo visitar uma
amiga no edifício, dera um número de apartamento que o “seu”
Manoel, o porteiro, que era velho e surdo, tinha ouvido diferente,
a visitante precisava ser esclarecida sobre isso.
Mas antes que qualquer coisa fosse feita a senhora parou, de pé,
no meio da sala e, olhos fixos em Marilena, perguntou:
- Foi daqui que pediram uma empregada doméstica na TED?
Antes que Marilena se recuperasse do susto Theodoro respondeu:
- Foi, sim senhora, tínhamos uma, a Nanéia, que trabalhou conosco durante 40 anos e infelizmente faleceu, no mês passado...
Na mesma posição empertigada, e sem parecer interessada na
morte da Nanéia, ela finalmente se apresentou:
- Meu nome é Florinda, já trabalhei em diversas casas e apartamentos, e preciso fazer algumas perguntas a vocês...
Fingindo não estranhar o “vocês” Marilena disse que Florinda
ficasse à vontade e que podia perguntar o que quisesse.
E então, com os três de pé, a candidata ao emprego começou:
- Quantos membros tem a família?
- Dois, respondemos juntos, ao que Marilena completou; somos
somente eu e meu marido
- E as dependências do apartamento?
Theodoro se adiantou:
- Esta sala de visitas, uma outra, menor, da televisão, a varanda, dois quartos sendo um suíte, um banheiro social, cozinha, quarto
de empregada, banheiro,e uma pequena copa onde fazemos as refeições.
Marilena, percebendo que o marido havia esquecido acrescentou:
- Ainda temos um espaço, na cobertura, onde estamos fazendo
obras...
Florinda, demonstrando firmeza na voz, prosseguiu:
- Qual o tipo de trabalho que vocês esperam que eu faça?
Marilena, já meio irritada mas procurando se controlar:
- O que esperamos da senhora é o que se espera de uma boa
e competente empregada doméstica: conservar o apartamento
limpo, cozinhar, lavar, passar... Aliás temos, para facilitar o
seu trabalho, uma lista completa das tarefas diárias, semanais,
quinzenais e semestrais, que está fixada numa das paredes da
copa... Seguindo o que está escrito tudo fica mais fácil.
Pela primeira vez Florinda se mexeu, passando a firmar-se na
perna direita e depois de um pequeno silêncio;
- E quanto ao horário de entrada e saída do trabalho?
- O horário de entrada é 08:00 horas, e o de saída é a senhora que
faz. Se terminar o serviço às 17:00 horas ou até antes, pode ir
embora... Outra coisa importante: a semana é de segunda à sexta.
- Bom, eu só trabalho com carteira assinada, com direito à férias
remuneradas, décimo terceiro em duas parcelas, ou seja, junho e dezembro, e pagamento do meu plano de saúde. Não trabalho nos feriados nacionais, estaduais e municipais.
Marilena sentiu, pelo aperto que recebeu no braço, que Theodoro
já estava impaciente, mas Florinda ainda precisava saber mais.
- E quanto ao salário? ela indagou, voz firme.
- Pagamos oitocentos e cinqüenta reais de salário além do custo diário das passagens.
Foi então que Theodoro e Marilena se espantaram. Florinda deu
uma gargalhada que pareceu durar uma eternidade, e chegou a
curvar o próprio corpo enquanto ria. Depois, séria, encarou os
dois:
- Vocês só podem estar brincando! Acho que os quarenta anos em que tiveram a empregada que morreu, serviu para tirar vocês da
realidade! E estufando o peito magro:
-A Florinda aqui, só trabalha com um salário mensal de, no mínimo, mil seiscentos e oitenta reais, com aumentos de dez por cento a
cada ano trabalhado! Já vi que a TED me colocou numa furada!
Dizendo isso virou as costas, e, num passo apressado, foi até a porta do apartamento, abriu-a, voltou-se para Theodoro e Marilena e disse, alto:
- O tempo da escravidão acabou! Tenho pena da Ninéia, Manéia, sei lá o nome da infeliz! - deve ter morrido de inanição!
Em seguida fechou a porta, com estrondo e, felizmente, Marilena
e Theodoro puderam se olhar e começaram a rir.
Théo Drummond
8 comentários:
Théo, querido poeta, querido observante, querido cronista. Tem sido uma maravilha descobrir pouco a pouca tuas crônicas.
Exercício maravilhosso tem sido este.
beijos ternurentos
Amo você, poeta!!
Clau Assi
Querido Theo!
Fiquei presa na historia, e nao conseguia segurar minha curiosidade de chegar no final! hahaha! Excelente! Me parece muito com as empregadas de "agora", nao eh? Querem tudo.. "Ja nao se faz mais pessoas dedicadas como antigamente". Sei que isso nao eh uma regra...nao eh mesmo? Nao podemos generalizar.
Theo, quando eu morava no Brasil, morava em Sao Paulo, no Brooklin, em um apartamento de UM dormitorio, e tinha uma empregada que vinha 3 vezes por semana.
Agora aqui nos EUA, eu numa casa enorme, e quem faz tudo sou eu! Empregada aqui eh "ficcao cientifica"... hahaha
Beijao querido amigo, poeta, cronista! Voce eh maravilhoso!
Mary
Amigo Théo esta crônica, como tantas outras que vc escreveu, é muito boa.
Isto é realidade.
Meus parabéns!
Um forte abraço
Estevão Machado Athaydes
Lecy Cardoso
Théo querido, quem é rei, sempre majestade.
Seja nos sonetos, ou contos, ou qq outros escritos, teu singular talento aflora de forma irretocável,com magistral tom de diversificadas roupagens.
Abraços com carinho.
Marilândia
Saiba Théo,
Não vou negar que ri, desde quase o meio até o final. Porque achei ousadia da Florinda, ou seja lá mesmo o nome da moça.
E da imagem que criei da Marilena, sua esposa rsss...
Tentei ficar no lugar dela e isso pra ver se conseguiria chegar ao menos ao final do texto e com toda a verdade naquela parte:Qual o tipo de trabalho que vocês esperam que eu faça?KKKKK...
Não consegui me segurar porque estava lendo com o Wilson e nós não conseguimos nos segurar , perdoi-me....
Então daí abaixo, ninguém conseguia ficar sério e imaginavámos até a fisionomia do meu grande amigo aí. Saiba Théo é uma realidade mesmo esse teu texto, mas a gente tem que manter o humor né amigão? Abraço, sua fã e amiga
Isis
Muito Legal!!!mas é isso aí né contratar empregadas nos dias de hoje é complicado!!um abraço
Realidade forte que só pode virar "semi comédia meio dramática", mas que realmente cutuca a alma da gente, pois o reverso do verso é de difícil cantata. Para tudo há um jeito pra falar. Para tudo há um jeito de ser, de amar e de conquistar. Muito bem narrado e o sorriso muito bem marcado. Abraços amigo.
Gosto muito de ler seus textos e todos os dias pela manha dou uma passadinha pelo blog "poesia cá e lá" para fazer de meus dias produtivos não só no trabalho mas também no que diz respeito á parte emocional. Porém só hoje conheci Théo Drummond em prosa, e agora tenho mais motivos para para não mais deixar de diariamente fazer minhas visitinhas. Parabéns
Postar um comentário