sexta-feira, 5 de março de 2010

A MARGARINA E A PROPAGANDA


Jornais do mundo inteiro noticiaram a descoberta, e donos de grandes multinacionais que distribuíam o produto e similares nos principais mercados mundiais ficaram de olho. Um modesto químico japonês, chamado Manoel, morador de num vilarejo longe de Tóquio, havia inventado uma margarina cuja matéria prima era o cocô - matéria prima, é lógico, de custo zero.

No principio ninguém deu bola, muito menos os "boards" das multinacionais. Com a continuidade das notícias, porém, alguns presidentes mais espertos, começaram a se

preocupar. Pensavam - e com razão - que a indústria que conseguisse convencer o químico japonês Manoel a vender a fórmula, ficaria absoluta no mercado. Modesto, Manoel ficou impressionado com a quantidade de repórteres que iam ao seu minúsculo laboratório - todos querendo saber tudo sobre o novo e revolucionário produto. Sempre ouviam o japonês dizer que a fórmula não estava pronta - faltava uma pequena coisinha para terminá-la.

Com a impaciência própria de quem quer ganhar sempre mais dinheiro, quatro presidentes de multinacionais resolveram acabar com o mistério. Se era verdade que faltava apenas "uma coisinha" para que a fórmula ficasse pronta, cada qual colocaria os melhores químicos de suas indústrias, em todo o mundo, para trabalhar no caso - e num instante tudo estaria resolvido. Depois combinariam a maneira de lançar o produto no mercado, é claro que com nomes e embalagens diferentes. Mas isso era para ser resolvido pelas suas agencias de publicidade,

cada qual mais entendida em “vender” qualquer coisa, usando a criatividade dos componentes da área da Criação.

No dia e hora marcadas os quatro presidentes e seus assessores de imprensa chegaram, em helicópteros, vindos de Tóquio, ao laboratório do japonês Manoel. Nervoso, e depois das curvaturas naturais como cumprimento aos visitantes, colocou-os em pé, junto a uma velha mesa redonda, onde, no meio, havia uma lata fechada. O silêncio de expectativa dos empresários foi cortado pela voz do japonês Manoel, num inglês precário:

-"Há anos estudo este novo produto. Falta ainda só um detalhe para que fique pronto para o consumo, em todo o mundo". Apanhou a lata, abriu-a diante dos olhares ansiosos dos visitantes, dizendo, "aí está, podem examiná-lo!"

Um presidente mais afoito pegou a lata, olhou e disse:" , tem a cor exata das nossas margarinas!” . O segundo, em seguida, enfiou o dedo no produto, esfregou-o entre os dedos e exclamou: "é incrível, tem a consistência da margarina!" O terceiro levou a lata até o nariz: "meu Deus, tem o cheirinho das nossas margarinas!" Foi aí que o quarto presidente, com o dedo indicador, tirou uma pequena porção do produto, levou-o à boca e logo cuspiu no chão,

com cara de nojo, quase vomitando. Depois de respirar fundo engrenou um grito de alerta: “esperem aí, mas o gosto é de puro cocô!"

Diante da balbúrdia formada o tranquilo japonês Manoel explicou: “durante todo o tempo disse a verdade para os senhores, sempre apressados em ganhar mais dinheiro. Ou seja, que faltava só uma coisinha para completar a fórmula!”.

A historinha acima foi publicada, há anos, por uma revista chamada "Propaganda", e veio à minha cabeça a propósito de um tipo de comportamento, no Brasil, nas áreas de publicidade e marketing. Se alguém se der ao trabalho de avaliar onde estacionam, entra governo sai governo, as grandes contas, por exemplo, dos ministérios e estatais, verão que elas circulam entre as maiores agencias de propaganda ( o que não quer dizer, as melhores) do Brasil. Os editais, com suas exigências descabidas, eliminam das concorrências pelo menos 95% de outras agencias com plenas condições de atender às necessidades dos "exigentes" clientes.

Isto, sem falar nas concorrências de grandes empresas privadas em que ninguém pensa em mudar jamais de Agência(s) ou, quando pensa, escolhem duas ou três para participar de concorrências "trancadas". Fora destas, nenhuma outra pode apresentar suas idéias.

Á propósito, um amigo nosso, sério, e responsável pelo marketing de uma grande empresa brasileira, nos dizia de sua confusão mental por ter que escolher uma outra agência para o lançamento de uma nova linha de produtos. “Me pediram para visitar três das grandes. Fui, e todas pareciam ótimas. Como tinha que escolher uma, comecei a usar alguns critérios importantes como os quantitativos, os qualitativos, a empatia... E veja só o que aconteceu:

quantitativamente todas me mostraram números ótimos. Qualitativamente todas eram premiadíssimas. Quanto à empatia, foi uma loucura. Compareci a uns três jantares regados a vinho francês, fiz vários passeios de lancha em Angra, Búzios - uma loucura!."

-" E afinal escolheu?" perguntei.

E ele, filosofando: " apesar das três agências, na hora da apresentação do planejamento da campanha se mostrarem incrivelmente criativas, com atendimento perfeito, oferecimento de descontos, etc, resolvi mudar o hábito da empresa e ficar numa agência média. Visitei também

três. Nenhuma fez aquela encenação toda, as idéias eram excelentes, cada qual louca para

poder pegar aquela rara oportunidade! Já estamos trabalhando com a que escolhi, A diretoria da minha empresa concordou com a experiência e está todo mundo muito feliz!

E lembrando, também, da reportagem da revista "Propaganda", que tínhamos lido quando, há anos, havíamos trabalhado juntos: "quer saber? Levados, sabe lá Deus por quê, a só trabalhar com grandes agências, sem pensar que existem muitas outras, não tão grandes, mas doidas pra mostrar serviço, capacidade de trabalho, e parceria em todos os sentidos, clientes com grandes verbas só vão se convencer de que perderam tempo e podiam ser melhor servidos quando chegar a hora de experimentar o gosto de cocô daquela margarina do japonês José! lembrado?"


Théo Drummond

3 comentários:

Clau Assi disse...

Théo,
Ler tuas crônicas é bom...muito bom...você é fantástico!!

beijos ternurentos

Clau Assi

marilandia disse...

Excepcional cronista!!!
MAGO DAS LETRAS EM PROSA E VERSO.
Beijos e carinho, querido Théo.
Marilândia

poeta entusiasta disse...

Tuas Crõnicas refletem perfeitamente a realidade
vivida...camuflada nas entrelinhas
dos que detem o Poder.
Parabéns!!!Tenho muito a aprender
com vo!
Beijos poéticos