terça-feira, 23 de março de 2010

EU E MONIQUE


Talvez o assunto não interesse às pessoas que não gostam de bichos. Se for o seu caso procure ler outra coisa, juro que não fico chateado.

Mas o caso é que eu tive uma gata persa, branca, linda, e, já naquela altura, idosa, cujo nome era Monique. Era a que restara das seis gatas e um gato, todos persas, que criei na minha casa, durante anos.

Apesar de os inconseqüentes dizerem que os gatos têm sete vidas, o fato é que foram morrendo, um de cada vez e uma vez só – o que desmente a afirmativa chula e despropositada dos que garantem coisas só por ouvirem dizer.

Quem conhece gatos sabe como têm personalidade forte e como se apegam aos donos. Como são implicantes e teimosos. Como só fazem o que querem na hora que querem. Mas quem conhece gatos também sabe o quanto podem ser companheiros, carinhosos e amigos de verdade.

Monique, por exemplo, certamente por ter atingido uma idade avançada, já não se divertia correndo atrás de bolinhas de papel. Dormia muito – como sucede com os idosos, que fazem, do sono,uma espécie de treino para a morte – e nos locais os mais variados. Era preciso procurá-la de noite, antes de fechar as portas da casa. Várias vezes já dormira numa varanda descoberta, apanhando chuva, só por ter cismado fingir em não ouvir os meus chamados. De manhã, portas abertas, lá vinha ela, miando, olhos grandes e amarelos, assustada por causa dos relâmpagos e trovões. Enroscava-se nas minhas pernas até que a pegasse no colo para enxugá-la, antes da ração matutina.

Fomos, de verdade, grandes amigos. Sabia que a partir de determinada hora, já no final da tarde, ela ficava no topo da escada por onde eu ia subir, ao chegar, e minha mulher dizia que quando se ouvia o barulho do motor do carro, entrando na garagem, Monique ficava sentada, esperando que eu abrisse a porta. Eu subia, parava antes de entrar para fazer-lhe uma festa, e em seguida ia para o quarto, seguido por ela, ronronando – mostrando que estava feliz.

Subia na cama enquanto eu trocava de roupa, e quando me sentava para calçar os chinelos lá vinha ela, miando baixinho e em busca de mais carinho.

Mas Monique também tinha gênio e brigava comigo. Ao passar um fim-de-semana fora, quando voltasse ela estaria lá, no topo da escada, mas ao me ver corria para um lugar da casa para se esconder. Tinha que deixar o tempo passar, até que ela resolvesse aparecer, como que por acaso, andando junto a mim, para que a apanhasse do chão e começasse a conquistá-la de novo.

Envelhecemos juntos – ela mais depressa porque gatos vivem menos que os humanos – mas ambos com a mesma dignidade dos que sabem que o tempo não perdoa, mas nem por isso deixam de cultivar sentimentos bons, como o da amizade e do companheirismo. Que tanta falta fazem neste mundo de agora, cheio de corações ressequidos pela incompreensão, a inveja, o despeito – incapazes de perceber o valor e a beleza de uma amizade, seja ela entre pessoas ou entre pessoas e bichos.


Théo Drummond

5 comentários:

POESIA CÁ E LÁ disse...

Théo,

Sua crônica é extremamente leve, doce como a amizade verdadeira que os animais domésticos nos oferecem.
Muito me lembra meu relacionamento como o Millu e com a Cocada, Millu por ser "velhinho" dorme muito...cochila o tempo todo. Cocada, novinha ainda gosta de brincar, pular e de brinquedo. Ambos extremamente carinhosos.
Muito boa a emoção que sua crônica no traz. Muito bom emocionar-se como se com poesia fosse.
Parabéns, poeta.
Parabéns, contista.
Parabéns, cronista.
Escritor perfeito.

Beijo ternurento

Clau Assi

*Isis* disse...

Amigo Théo.
Monique obra da amizade sincera entre um humano e seu animal.
Nos faz ver que:A amizade não mede distância nem a origem que seja o nosso companheiro querido.
Por isso, os homens aprendem tanto todos os dias.
Amei essa linda história de amizade as pessoas esquecem que é tudo que importa na vida, gostar e ser gostado sem segundas intenções.
Monique manhosa, sabia como ter a atenção de seu amigo e fazia jus a isto.
O amigo prestava atenção nos detalhes daquela amizade o que é tão lindo e importante.
Me fez lembrar a frase de Matthew Kelly que dizia mais ou menos isso " Um poder de que não nos damos conta e de que muitas vezes abrimos mão. A vida é feita de escolhas."
E você meu querido, escolheu amar e põe isto na sua escrita linda.
Com admiração desta simples amiga que te adora.
Isis

Karinna* disse...

*Poeta Théo, tua crônica é um desfilar de nuances ternas dos que olham com os olhos de amor a vida e todas as suas manifestações.
Animais são instrumentos de aprendizagem quando "lemos" suas atitudes com os olhos do coração.
Um relato tocante dessa relação afetuosa, cúmplice e solidária,uma partilha de fato.
Muito bom ler-te em qualquer estilo.
Meu abraço e admiração.
Karinna*

Poemas e Cotidiano disse...

Querido Theo!
Que linda a historia da sua gata. Sem duvida alguma os animais tem cada um a sua propria personalidade. E tambem pegam alguma coisa da nossa personalidade.
Tive uma vez um cachorro, mas foi a coisa mais errada que fiz. Quando o escolhi (para minha filha) ele era pequenininho, e eu nem pesquisei o tamanho que aquela raca ficaria (American Sheppard). Nossa meu amigo! Ele ficou enorme! Nossa casa nao tem quintal, eh condominio. Eu tinha que deixa-lo preso o dia todo enquanto ia trabalhar. Ele se tornou um cachorro violento. Tive que da-lo e tive a sorte de encontrar um homem que tinha uma fazenda, e estava querendo um cachorro. Fiquei um ano com ele, mas chorei horrores quando fui da-lo. O meu chefe naquela epoca (onde eu trabalhava) me via chorando todo dia, e perguntou se eu estava com problemas com meu marido (rs).
Realmente a gente se apega com esses bichinhos.

Beijos carinhosos, obrigada por tao gostosa leitura.
MARY

Marineves disse...

Théo!
Essa Crônica me faz lembrar minha infância distante,tinhamos muitos gatos ,uma em especial que se chamava: Michana - Uma linda angorá.Eu não gostava muito deles porque são molengos para toca-los e preferia os cães.
Mas,é verídica sua constatação em dizer que eles são amorosos,amigos e companheiros.Pude notar isso ao longo da infância e juventude; vê-los morrerem sempre amorosos e fiéis aos seus donos.
Está de parabéns e foi muito bom acessar seu blog e maravilhar-me com suas crônicas.
Abraço fraterno.